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Este vídeo é um programa da série Fundamental, do canal Apreciando Arte no Youtube, no qual o prof. Fábio San Juan apresenta as obras de arte que todos precisam conhecer.

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Transcrição do vídeo:

Por que você precisa conhecer a obra “Amarelo, vermelho, azul” de Vassily Kandinsky?

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Vassily Kandinsky era um dos muitos artistas que queriam representar o que não era visível, no começo do século XX. Aos trinta anos, ele abandonou a carreira de advogado e dedicou-se integralmente à arte.

Nós sabemos hoje que Kandinsky não foi o único inventor da arte abstrata no Ocidente, e que, cronologicamente, foi a artista sueca Hilma Af Klint a primeira artista a ter pintado uma série de obras abstratas em 1906. Outros artistas, como Picasso e Kupka, também contribuíram para que os artistas desenvolvessem uma “arte do que não pode ser visto, mas existe”, que é a definição mais básica de Arte Abstrata.

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Hilma af Klint Chaos Nr. 2 1906

Mas o artista de origem russa foi o principal criador, defensor e divulgador da arte abstrata, do começo do século até a sua morte, em 1944.

Kandinsky buscava o conhecimento do mundo além das aparências através da espiritualidade. Antes de se tornar artista, conheceu pessoalmente o xamanismo de povos siberianos. Anos mais tarde, aderiu à teosofia, doutrina filosófica esotérica fundada por Elena Blavatsky em 1877.

Motivado pela leitura e palestras de Rudolf Steiner, ele começou seu caminho com pinturas que apresentavam símbolos, como o “Cavaleiro azul”, que significa tanto São Jorge, padroeiro da sua cidade natal, Moscou, quanto a luta do artista armado de emoção e sentimento contra o mundo materialista. Esse tipo de narrativa simbólica impregnou todas as suas obras no início da carreira.

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Mas não era suficiente para Kandinsky. Ele queria uma arte que expressasse algo ainda mais profundo do que os símbolos. Ele queria chegar à essência, a disposição dos elementos puros da Arte – a cor, o ponto, a linha, as formas geométricas – de uma maneira que o espectador acessasse diretamente dentro de si as sensações e sentimentos que o artista desejava comunicar.

No seu livro “O Espiritual na Arte”, publicado em 1912, ele comunica suas intenções em relação à arte que está desenvolvendo, imagens que expressem a atividade mental e espiritual.

De uma forma bastante ligada ao idealismo de Platão, que acreditava que existe um mundo onde tudo é perfeito e que o nosso mundo visível é a sua imitação imperfeita, Kandinsky afirmava que:

Antes de tomar corpo e tornar-se acessível aos sentidos humanos, a obra já existe em abstrato. Para a necessária materialização, qualquer meio é bom, tanto a lógica como a intuição”.

Para chegar a esse objetivo, o pintor utilizou-se da linguagem musical como referência. Ele começa a usar em suas pinturas os termos Improvisação, Composição, Harmonia, emprestados da música. Kandinsky também traça associações que chamamos de sinestésicas – sinestesia é quando os sentidos se associam e expressam um ao outro, como quando dizemos que o gosto da cor amarela é azeda, ou uma linha é áspera, ou um salto de dança é azul.

Nós podemos perceber aqui, em Improvisação VI, que as cores são mais importantes que as formas. A vibração que as manchas de cor assumem quando estão próximas umas das outras, as passagens de tons da mesma cor, a proximidade de cores primárias – amarelo e vermelho, vermelho e azul, amarelo e azul – além de cores complementares – vermelho e verde, por exemplo – causam contrastes fortes e o quadro todo vibra, nosso olhar percorre a tela de uma forma muito dinâmica, enérgica, viva. Kandinsky pretendia que a contemplação do quadro fosse similar à apreciação de uma música, que “faz vibrar a alma humana”.

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Este é uma pintura de Kandinsky que representa seu caminho até a abstração não-figurativa. Ele experimentou muito antes de renunciar à formas ligadas à natureza visível. Mesmo depois de apresentar o que teria sido a primeira obra inteiramente abstrata da arte ocidental, “Primeira Aquarela Abstrata”, em 1913, ele ainda produziu muitas obras com elementos figurativos, misturadas com elementos formais puros, como esta (Moscou I, 1916).

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Ele tinha receio de abandonar completamente as formas do mundo visível e esvaziar de significado as obras chamadas de “abstratas”.

Se a partir de hoje começássemos a romper o laço que nos une à natureza, a nos encaminharmos pela força para a libertação e a nos contentarmos unicamente com a combinação de cor pura e forma livre, criaríamos obras cujo aspecto seria igual ao da ornamentação geométrica similar a uma gravata ou a um tapete.”

A beleza da cor e da forma não é meta suficiente para a arte”

Quando nos deparamos com “Amarelo, vermelho, azul”, em 1925, Kandinsky já saiu de sua fase “abstracionista informal”, ou seja, com formas dissolvidas, indefinidas, e entrou em sua fase “abstracionista geométrica”, que utiliza formas geométricas puras reconhecíveis e com contornos e áreas de cor mais definidos, como o quadrado e o retângulo, triângulos, círculos, planos, linhas, pontos, ovais, e muitas outras.

Em 1922, depois de voltar de um período de 8 anos na Rússia soviética, aceitou um cargo de professor na cidade de Weimar, na Escola Bauhaus, a escola que fundou o design moderno. É o local onde residia e trabalhava quando pintou “Amarelo, vermelho, azul”, em 1925.

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O artista estabelece em “Amarelo, vermelho, azul” o que chamou de “equilíbrio dinâmico”: dois grupos de elementos compõem a tela. O grupo da esquerda é composto em sua maioria de linhas verticais e horizontais, posições em que nosso cérebro associa com estabilidade. O grupo da direita é composto em sua maioria de elementos circulares, curvas e linhas diagonais, elementos que nosso cérebro interpreta como instáveis.

Os dois grupos tem sua divisão sinalizada pelo “sol” situado no meio do quadro, no topo. Quando miramos os outros dois círculos, nosso cérebro forma um triângulo, forma dinâmica pois é composta de diagonais. O dinamismo do triângulo nos leva, no vértice de baixo, à linha sinuosa marrom à direita, que em seguida nos leva ao círculo azul, ao círculo vermelho, à paleta vermelha em formato quase de cunha, que nos leva à “lua” rosa contornada de preto, ao semicírculo traçado em preto, em seguida à série de traços marrons e vermelhos que nos levam finalmente à cunha vermelha que aponta para o centro do quadro. E assim indefinidamente, seguimos pelo quadro como se estivéssemos numa estrada sinuosa, repleta de uma interessante paisagem, que fosse ao mesmo tempo a pista que percorremos.

O pintor usa tanto massas de cores com contornos fechados quanto áreas em que a cor é difusa, espalhada, aplicada em degradê. O fundo branco é uma tela em que as cores complementares são projetadas de acordo com a atenção que focamos numa determinada cor. Se contemplarmos por um bom tempo o círculo azul na parte superior da direita, a sua cor complementar, o laranja, irá aparecer no fundo branco nas proximidades. O mais interessante é que Kandinsky “puxa” nosso olho para a complementar laranja na outra extremidade, o que conduz nossa “viagem” pelo quadro também através das cores. E assim faz também com os amarelos e violetas, os vermelhos e os pouquíssimos verdes da tela.

Se você olhar com tempo e calma, começará a ver formas e vai formar um significado próprio para o que vê na tela. Essa era a intenção de Kandinsky: não fechar um sentido único para o que pintava, mas proporcionar ao espectador uma imagem que o levasse além do mundo visível, numa jornada pelos sentidos, pelas emoções e ideias. Kandinsky nos convida para essa jornada como um ponto de partida para viagens ainda mais belas, curiosas e estimulantes.

 

3 respostas a “VIDEO | Amarelo, vermelho, azul, de Vassily Kandinsky | FUNDAMENTAL”

  • Muito boa as suas informações. Não conhecia o fato dele ter se valido de elementos musicais para inicialmente “compor” os seus quadros. Aprecio apenas por puro deleite o que a pintura nos traz, a melhoria da alma. Quando me deparo com um quadro abstrato, penso que seu autor retrata um pensamento, e minha admiração reside nisso, colocar na tela um pensamento tem sua grandiosidade principalmente ao sabor das cores e o Kandinsky faz muito bem isso, nos dá pistas pelas várias linhas. O pensamento voa com as suas cores e formas equilibradas. Valeu.

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