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Este vídeo é um programa da série Fundamental, no qual o prof. Fábio San Juan apresenta as obras de arte que todos precisam conhecer.

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Transcrição do vídeo:

Se você já prestou atenção em capas de DVD, programas de TV ou qualquer material visual referente à música sertaneja, já deve ter visto a figura desse caipira na porta de uma casa rústica, picando fumo com uma faca comprida.

Essa imagem é o símbolo mais conhecido e mais forte da figura do caipira, esse personagem tipicamente brasileiro e que o pintor Almeida Júnior ajudou a fixar na cultura nacional.

Como isso aconteceu?

Quando pintou “Caipira picando fumo”, José Ferraz de Almeida Júnior já era um artista consagrado. Estava com 43 anos de idade. Era formado na Academia Imperial de Belas-Artes do Rio de Janeiro e na Academia Imperial de Belas-Artes de Paris. Possuía uma extensa carteira de clientes particulares – principalmente os fazendeiros produtores de café e profissionais liberais paulistas, a maioria republicanos. Mantinha seu ateliê em São Paulo – longe da capital da recém-proclamada república, o Rio de Janeiro – e atendia a clientes particulares, algo muito, muito incomum na época.

O que o pintor mais produzia, desde que tinha voltado da França em 1882, onde tinha estudado, eram retratos e encomendas para esses clientes. Ele tinha apoiado o movimento republicano, embora sua bolsa de estudos tenha sido financiada do próprio bolso do imperador D. Pedro II. Percebendo a oportunidade de ter amigos influentes, políticos como Prudente de Moraes, Benjamin Constant, fazendeiros de café, engenheiros, advogados e técnicos do governo, a maioria de republicanos, o pintor ituano colocou-se à disposição dessas pessoas e acabou por transformar-se no pintor mais requisitado do grupo que tornou-se governante do país a partir da proclamação da república em 1889.

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O seu sustento, portanto, estava garantido com essas encomendas.

Almeida Júnior nasceu e cresceu na cidade de Itu, no interior de São Paulo. Talvez pelo amor que sentia pela gente humilde de sua região, talvez por enxergar no caipira e seus costumes um tema que não tinha sido explorado pelos pintores brasileiros, ele pintou o caipira desde o início de sua carreira.

A sua primeira tela que chamou a atenção do público nacional foi o “Derrubador Brasileiro”, selecionada para o Salão dos Artistas Franceses em 1879. Um derrubador – uma pessoa que derruba as árvores e o mato para abrir terreno à plantação – é o personagem-tema. Almeida Júnior inaugura o tema em sua carreira com uma tela forte, que nos conta visualmente sobre o trabalhador do campo no final do século XIX.

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Até realizar sua obra seguinte com camponeses, Almeida Júnior alterna retratos como os de Prudente de Moraes, e pinturas de gênero ao gosto de sua clientela, como o “Descanso da Modelo”, de 1882, uma cena de interior doméstico com muita influência do holandês Johannes Vermeer, pintor do século XVI.

Antes do quadro “Caipira picando fumo”, ele pintou em 1888 “Caipiras negaceando”, que mostra uma cena de caipiras caçando. Vê-se por aí que o artista não pintava somente o que lhe dava vontade, mas juntava sua preferência pessoal com um possível mercado que pudesse comprar sua produção. Somente em 1893 Almeida Júnior voltou a pintar caipiras.

Nesta época, cresceu o interesse pela História de São Paulo e dos personagens que construíram a sociedade paulista. Em 1894, foi criado em São Paulo o Instituto Histórico e Geográfico Paulista, o IHGSP, para organizar esse esforço. Nos estudos e livros que surgem a partir daí, uma das figuras do passado que é resgatada alcança o status de herói fundador, o bandeirante. Outra figura que se modela neste período é o caipira, o mestiço de índio e português que mora no campo, entre a civilização e a cultura indígena, uma figura humana tipicamente paulista.

A abordagem do tema de pessoas do campo não era inédita. Almeida Júnior certamente viu na França muitos quadros cujo tema eram pessoas do campo, algo muito comum e até na moda, quando era estudante. Outros artistas antes dele, como Félix-Émile Taunay, já tinham pintado a vida camponesa no Brasil. O artista enxergou, na moda europeia de mostrar camponeses, a possibilidade de tratar de um ambiente similar no Brasil, que ele conhecia bem, encontrou aceitação entre os seus clientes, ajudando de quebra na construção da cultura brasileira.

Antes de pintar a tela de grandes dimensões que é “Caipira picando fumo” (dois metros de altura por quase um metro e meio), o artista pintou um estudo que também se encontra na Pinacoteca de São Paulo, de tamanho menor (70x50cm). Almeida Júnior foi buscar o caboclo Bento Antonio Pires, conhecido em Itu como “Quatro Paus”, como modelo da obra.

Contemplando a cena, encontramos o caipira num momento de descanso, podemos dizer até de lazer: ele está picando fumo, ou seja, tabaco seco, para colocá-lo dentro da palha, que se encontra atrás de sua orelha esquerda, e que irá enrolar em formato de cigarro, para depois fumá-lo. Sentado, de pés descalços, com a calça suja de terra com a barra dobrada para cima, a camisa branca meio aberta, o rosto em postura de concentração, os degraus da casa, a trama da parede de pau a pique e sapê, as tábuas da porta e a sombra projetada da árvore, assim como a sombra da árvore no chão de terra no canto direito, tudo nos leva a uma tranquilidade, a uma estabilidade, que nos leva a uma interpretação de imobilidade, uma suspensão do tempo que representa um momento de descanso.

A linha diagonal da faca comprida que corta o pedaço de fumo é uma quebra dessa estabilidade. Os tons avermelhados da pele, da parede de pau a pique e a fresta da porta, pela qual entrevemos uma luz que pode ser do fogo de um fogão a lenha, a própria luz branca estourada da camisa branca do caipira – na verdade começamos a ver uma tensão que não tínhamos notado antes.

As manchas avermelhadas na calça do caipira são mesmo de terra?

Há um equilíbrio, portanto, entre o momento de descanso, de uma vida do campo, tranquila, e o temperamento “esquentado” do caipira, aliás, muito explorado nos filmes de Mazzaropi.

Mas esta é somente a minha interpretação – uma das interpretações possíveis.

O “Caipira picando fumo” é justamente considerada uma obra-prima por abrir a possibilidade de várias leituras, diferentes entre si.

Cada estudioso que contemplou a obra com atenção e a comentou vê o seu caipira – o homem do povo brasileiro, um retrato da violência no campo, um tipo nacional que deve ser glorificado, um símbolo da ignorância, um retrato da simplicidade das pessoas humildes. E você – qual é a sua visão do “Caipira picando fumo”?

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