Cristo de São João da Cruz, de Salvador Dalí

1951, óleo sobre tela, 2,05m x 1,16cm – The Glasgow Art Gallery, Glasgow, Escócia

Salvador Dalí é conhecido por suas obras surrealistas, principalmente pela tela dos relógios derretendo, “A Persistência da Memória”, de 1936, e a própria figura – um homem magro, de bigodes espetados com brilhantina e olhos arregaladíssimos.

Surpreende a muita gente quando dizemos que Dalí voltou ao catolicismo na década de 1950, depois do período da vanguarda surrealista em que se declarou ateu. Mas Dalí não deixou sua criatividade de lado nem seus pontos de vista inusitados.

Teve a intuição de abordar a crença católica a partir do que chamou de “misticismo nuclear”, em que via a ordem no Universo nos termos da física nuclear e da energia atômica, uma preocupação muito própria da época da Bomba Atômica de Hiroshima e da Guerra Fria. Chegou inclusive a pedir permissão ao papa Pio XII para pintar sua “Madona de Porto Lligat”, em audiência no Vaticano, e a obteve. A partir desse quadro, Dalí reúne os vocabulários surrealista e renascentista para colocar muitos símbolos cristãos em evidência, mas utilizando da dissolução das formas, fazendo referência à dissolução do átomo, presente na fissão nuclear da bomba atômica.

O pintor catalão inspirou-se no desenho de São João da Cruz, que mostra Cristo pendendo da cruz, visto do alto, quase caindo. São João da Cruz teve a visão do desenho em uma visão mística no final do século XVI, Dalí conta que sonhou duas vezes com a sua imagem, onde via Cristo como o “núcleo do átomo” e como “unidade do universo”.

No “Cristo de São João da Cruz”, a dissolução da fissão nuclear não está presente. Talvez devido à visão de Cristo como unidade. Mas a originalidade de Dalí está presente: pouquíssimas vezes, ou nenhuma, você viu um crucifixo diferente do Cristo visto de frente. Aqui, é como se partilhássemos da visão do Filho visto por Deus Pai: além de visto do alto, ainda vemos Cristo sem coroa de espinhos, sem pregos nas mãos ou nos pés, sem sangue. É um Cristo glorioso, ainda na cruz, embora não ressuscitado.

Dalí mostra sua técnica, similar a dos grandes mestres, para pintar uma cena realista, uma volta à arte clássica sob novos termos. No cenário, um horizonte que serve para a contemplação do céu místico, em azul e dourado, e que também serve para marcar o horizonte terreno, um por de sol no litoral de Porto Lligat. Dois pescadores estão serenamente na praia, perto de um barco, uma referência a Pedro e André, pescadores de profissão e os primeiros discípulos de Jesus, chamados por Ele enquanto pescavam; mas também uma referência a personagens de quadros de Velasquez, pintor espanhol do século XVII do qual Salvador Dalí era admirador. Os personagens estão vestidos com roupas desse século. Uma figura não identificada está no cais, na sombra, perto de um barco oculto pela curva do porto. Seria o subconsciente? Ou o demônio que espreita?

A inscrição do topo da cruz, tradicionalmente o acróstico em latim INRI – Jesus Nazareno Rei dos Judeus, representado numa tabuleta de madeira, como narrado nos Evangelhos – é substituído por um papel com vincos, desdobrado. É uma referência à forma que Velasquez assinava seus quadros, mas aqui o papel está vazio, sem a inscrição INRI, nem a assinatura de Dalí. A assinatura do artista não se encontra em nenhum outro local da tela. É uma forma de dizer que sobre Deus não há outro criador possível – nem mesmo o egocêntrico Dalí, numa das suas raríssimas demonstrações de humildade.

Partindo do desenho original de São João da Cruz, Dalí oferece uma imagem que serve à meditação da Paixão de Cristo e da missão do Salvador da humanidade, uma imagem do Cristo em sua beleza metafísica, sobre-humana, pairando sobre a Terra árida, na glória de um por do sol místico, abençoando os pescadores que fazem seu trabalho, chamando-os à sua vocação.

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