Entrada de Jesus em Jerusalém, de Giotto

Afresco, 1304-1306, 2,00m x 1,85m – Capela degli Scrovegni, Pádua, Itália

A entrada de Jesus em Jerusalém marca a festa do Domingo de Ramos, nas igrejas Católica Romana, Ortodoxa e algumas protestantes. É o momento dos Evangelhos em que Jesus entra em Jerusalém, montado em um jumento, e é aclamado como rei.

A imagem que vemos aqui é o afresco pintado por Giotto di Bondone, o primeiro pintor italiano, e talvez europeu, a empregar os recursos de volume e perspectiva para provocar no espectador a ilusão de que os desenhos eram “parecidos” com a realidade visível.

Então, para enfatizar a humildade de Jesus, um recurso que Giotto utiliza é colocá-lo no mesmo plano das pessoas que o aclamam, caminhando no mesmo chão que eles, mas também do mesmo tamanho que eles. O que o diferencia é o fato de estar montado no jumento; de apresentar auréola, assim como o grupo de discípulos logo atrás dele. Aliás, a figura do jumento divide o primeiro plano em dois grupos.

Notem que o domínio da perspectiva, do nosso ponto de vista, ainda não é pleno: a cidade, para “caber” na composição, tem muros muito menores que podemos admitir depois da chegada da perspectiva geométrica desenvolvida cem anos depois, com Filippo Brunelleschi. Mas a cena funciona: identificamos o tema, aceitamos que Jesus está chegando a Jerusalém e está sendo recebido por uma multidão, que estende os seus mantos no chão e agita ramos, empoleirados nas árvores, talvez oliveiras e não palmeiras, para aclamá-lo como Rei e Messias.

A se notar também: as auréolas estão em perspectiva, como se fossem discos colados por trás das cabeças dos santos; Giotto também usa o sombreado bem marcado, nas roupas de todos os personagens, de uma forma que lembra dobras de pano de esculturas. Provavelmente foi observando estátuas que ele desenvolveu essa forma de representar os volumes, algo muito inovador na arte europeia nessa época – século XIV – e que rompia muito fortemente com a tradição bizantina, que era predominante.

Ainda o artista não representa emoções nos rostos dos personagens, seja porque não tentou, seja porque não consegue. Mas o que encantou os seus contemporâneos, e ainda nos encanta, é o contraste entre a tradição anterior, medieval – que enfatizou a divindade de Cristo e a santidade dos seus seguidores como atributos sobrenaturais, fora da experiência do dia-a-dia, e por isso, obrigatoriamente representada fora da tradição realista, distorcendo figuras e mostrando essas figuras numa proporção diferente dos simples mortais – e essa nova tradição, que enfatizou os atributos humanos dos personagens divinos. Como disse Jesus, “o sol nasce para todos, justos e pecadores”. E por isso ilumina a todos da mesma forma, o Cristo, os santos e os pecadores, dotando-os dos mesmos sombreados, volumes e profundidade.

Era o primeiro passo para o Renascimento – não uma negação da divindade, do sobrenatural, mas a ênfase na humanidade de Cristo, usando para isso recursos visuais realistas, que o mostravam Deus encarnado em Homem, no meio dos homens, sujeito por isso às suas dores, sofrimentos e incompreensões.

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