por Catarina Landim

Proponho aqui o início de uma conversa. Na realidade um convite para você olhar com olhos novos e ouvidos atentos aquela escultura que tem na fachada do seu prédio, no saguão do shopping, na praça da sua cidade. Seja ela monumental ou um pequeno busto. Deixemo-nos envolver por algo que alguém quis nos contar!

Apreciar uma obra de arte é participar de um jogo. Um jogo de comunicação entre apreciador e artista, que só acontece quando aquele que observa deixa-se envolver, dedicando tempo e olhar atento para ir aos poucos reconstruindo a mensagem transmitida pelo artista através de elementos formais, símbolos, códigos. Ou ainda para construir um significado novo, individual, a partir de suas experiências pessoais.

Nesse jogo, muitos são os elementos envolvidos e cada técnica artística comunica de uma forma diferente. Se ao apreciar uma pintura, temos os nossos sentidos atraídos pela sensualidade da cor, ao apreciar esculturas, participamos de um exercício de relações e tensões: equilíbrio e desequilíbrio; dureza e fragilidade; leveza e rigidez; semelhanças e diferenças; movimento e estaticidade….

Mas o que é fundamental é que apreciar uma escultura nos envolve sempre num dinâmico ir e vir. E a cada passo em torno da obra, um outro ponto de vista que as vezes é inteiramente novo. Por isso, contemplar esculturas pessoalmente, ao vivo, é tão importante! Afinal, cada um acaba descobrindo seu melhor ponto de vista, que nem sempre é captado numa foto.

 

O que é uma escultura?

O termo escultura se aplica a obras de arte feitas em várias técnicas que têm em comum o fato de serem tridimensionais (3D como os alunos adoram falar!), ou seja, podemos contemplá-las em largura, altura e também em profundidade, seja ela total, como aquelas esculturas que podemos andar em volta e olhar seus diversos ângulos; ou parcial, como os relevos que nos apresentam alguns ângulos possíveis para contemplação.

As esculturas podem ser modeladas (como na argila, por exemplo, técnica em que vai se adicionando material); esculpidas (em pedras) ou entalhadas (em madeiras, técnicas em que o material é retirado com auxílio de ferramentas); fundidas ou moldadas (diversos metais, aqui um modelo feito em argila ou cera serve de molde para se criar uma peça em bronze ou gesso); e por fim, a partir do século XX, ela pode ser construída, instalada, justaposta (assemblage), técnicas que unem peças e utilizam objetos prontos para sua criação.

E já que falamos de comunicação, partiremos de alguns princípios da semiótica para fazer a leitura e interpretação da escultura contemplada, três etapas de coleta de informações definidas passo a passo abaixo. Nesse caso, atentar-se à técnica e ao tipo de relevo faz parte de uma das etapas de apreciação! Quando você estiver diante de uma escultura, tente fazer partir dessas etapas para entrar nesse jogo com o autor da obra!

 

Apreciando uma escultura – Três etapas fundamentais:

Vamos usar aqui como exemplo uma escultura que está exposta em duas versões na Pinacoteca do Estado de São Paulo, uma em gesso dourado dentro do museu e a outra em bronze no Jardim da Luz. Trata-se da Portadora de Perfume (ou Carregadora de perfume) do escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret, apresentada no Salão de Outono de Paris, em 1924.

Num primeiro momento deixemo-nos envolver pelas sensações que a obra nos transmite. Trata-se de uma escultura grandes dimensões, são mais de 3 metros de altura! Escura, densa por um lado… mas de uma graça leve e suave de outro! Traz-me uma sensação de movimento lento e sinuoso para o alto. 

Num segundo momento, me detenho nas formas. Quais elementos vejo?

Por se tratar de uma escultura de grande formato, a distância em que me coloco para apreciar é fundamental para o meu relacionamento com a obra. Se estiver mais longe, posso ver o todo, captar a forma e sua expressão principal: uma grande peça escura, com linhas que me fazem deslizar o olhar de forma suave de baixo para cima, de uma base pesada e forte para um topo leve, pequeno e gracioso. Trata-se de um corpo feminino, com formas curvilíneas e mais estilizadas, buscando uma geometrização.

E quando olho mais de perto, a sensação muda, vejo os detalhes, algumas formas projetam-se e parecem me envolver, tenho vontade de tocar uma superfície que tem uma textura agradável, que parece pele macia. Dependendo do ângulo ela tem o rosto voltado para mim: quanta leveza nesses traços! Soam traços orientais, ou quem sabe até indígenas…. me lembram queixas ou aquelas belas damas francesas da década de 20, carregando graciosamente um jarro com perfume.

Que delícia de fragrância! Os franceses, na época da apresentação da obra, adoravam perfumes e fragrâncias diferentes em tudo, sobretudo nas comidas. Tanto que apelidaram a escultura de Madeleine au Parfum. Madeleine é um tipo de pão doce muito apreciado em Paris. E isso faz parte do clima da época em que a obra foi feita.

E passamos para o terceiro momento: Saber mais sobre o contexto de produção da obra e interpretá-la.

Victor Brecheret (1894-1955) era escultor em São Paulo, iniciou seus estudos aos 18 anos no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Lá além de aprender o básico de letras e aritmética teve contato com as artes manuais e a escultura. Foi pelo incentivo de um professor do Liceu que o jovem voltou, em 1913, para a Itália com o objetivo de estudar escultura clássica. Teve contato com as obras da Antiguidade e do Renascimento, mas não conseguiu ingressar na escola de Belas Artes por não ter formação ainda. Estudou com escultores importantes que lhe deram uma formação técnica apurada e a proximidade com as obras de Michelangelo e Rodin. Retornou ao Brasil em 1919 e manteve-se isolado no contexto artístico, até que sua grande produção foi descoberta pelos modernistas no começo da década de 1920. Eles tornaram Brecheret ícone do movimento por sua escultura anti acadêmica e diferentes do que era produzido em São Paulo até então.

O artista aproximou-se do grupo Modernista, mas percebeu que precisava estudar mais para que sua produção se aprimorasse. É então que ele vai para Paris, em 1921, estudar e produzir. Foi uma adaptação difícil ao ambiente artístico, ao clima e ao local onde morava. No ano seguinte que o artista consegue produzir com mais intensidade e passa a atuar nos cenários parisiense e paulistano ao mesmo tempo, enviando 12 esculturas para a Semana de Arte Moderna. Nesse período o artista estuda com grande nomes da escultura moderna como Henry Moore, Antoine Bourdelle e Aristide Maillol

A portadora de perfume foi produzida em 1923, durante essa estada na França e exposta no Salão de Outono de 1924. Ela traz essa renovação da obra do artista em busca de uma linguagem mais moderna, com figuras mais estilizadas, geometrizadas, que tentam captar a essência da época e retomar a tradição da escultura grega arcaica, egípcia e chinesa antiga. É uma obra que representa o charme  e a languidez das figuras femininas da capital francesa na década de 1920, não de forma figurativa clássica, mas acentuando elementos, valorizando aspectos essenciais através da ênfase nas formas curvilíneas e ascendentes que fazem nossos olhos deslizar por um corpo charmoso e belo.

Ao olhar essa escultura, podemos ver a busca de um escultor talentoso com toda sua formação tradicional, por uma maneira própria de expressar-se diante de um mundo em transformação. E você, o que vê?

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