Louvor e Sonho

Texto do curador da exposição “Cântico das Criaturas e outras criações”, de Guido Boletti, realizada na Società Italiana de Piracicaba, de 03 a 30 de outubro de 2014

Mais que uma busca, o poema-oração de São Francisco de Assis, o “Cântico das Criaturas” mostra-nos em palavras um Encontro pessoal de um homem com o que está Além dele.

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O louvor que resulta desse encontro poderia ser a descrição de um mero encontro de um homem com o mundo, com os elementos, com as criaturas. Uma descrição da fruição dessas criaturas, a satisfação do prazer dos sentidos em encontrá-las e reconhecer suas qualidades. Mera satisfação pessoal, imediata, simples.

Um fim em si mesmo que não suscitaria louvor a um Elemento de ligação que a tudo permeasse de Vida.

O homem que louva ao Sol, a Lua, o Fogo, a Água, a Terra, o Vento, não acha que eles são seus deuses, que tudo vêm deles, e que tudo deles se origina. O homem que louva os elementos encontra uma Fonte de Vida que os sustenta. Esses elementos são, na verdade, a manifestação dessa Fonte de Vida no mundo. São a água que jorra, e não a Fonte.

As imagens de Guido Boletti transformam ainda mais esse encontro de Francisco e Deus, fazendo-nos senti-lo, através de suas cores muito vivas e suas formas fluidas, de uma maneira que nos leva, primeiramente, à fruição sensorial prazerosa, mas também aprofunda a nossa meditação quanto ao assunto do poema franciscano.

Na obra que abre a mostra, “Benedizione”, (“benção”), Francisco é um leitor do Cosmo – o santo parece tatear o fio com o qual Deus tramou o universo – e suas mãos tornam-se luminosas. O espanto de Francisco é justificável. Ele maravilha-se. Sua revelação, longe de levá-lo ao orgulho, eleva-o – à gratidão, em forma de louvor.

Essa explosão interior, que não é agitada, antes, é plena de serenidade, mostra-se em algumas materializações animais de criaturas louvadas – pássaros, lobo, de formas não ameaçadoras, antes, se tornam benignas. As próprias cores, no desvendar da trama do mundo, sofrem uma mutação. A luz torna-se azulada. Manifestações da estrutura tornam-se aparentes – espirais, linhas de força, cores e texturas. É a revelação, simples em sua essência, e ao mesmo tempo complexa pela quantidade de forças envolvida, fora do explicável. É o Além de nós, é o que nos ultrapassa o entendimento e os sentidos. É o Sagrado.

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Guido não transpõe as palavras para imagens em telas, como seria óbvio e muito menos interessante. O artista interpreta o sentido do poema-oração, em uma linguagem que à primeira vista lembra um sonho, mas que se situa naquele estado de consciência em que os sonhos são feitos, as ideias são gestadas, que a meditação é realizada – um terreno em que as permutas entre memória e experiência, conhecimento interior e percepção corporal entram em sintonia para iniciar – e às vezes conseguir – uma ligação com o Transcendente, com o que está Além de nós, seja o nome que cada um dê a Ele.

A beleza das criaturas convida não à posse, mas à descoberta de que a «figura do mundo que passa» também encerra e resplandece uma lição de calma, de regular simplicidade: o mundo canta a Deus, o mundo recorda Deus, o mundo espera Deus”.

José Luis Bomfim, “Francisco de Assis e Giotto de Bondone: A Fundação do Humanismo em Cristo”,

tese de mestrado apresentada ao Istituto Universitario Sophia, Loppiano, Itália, em 2011.

Fábio San Juan

Curador da Exposição ““Cântico das Criaturas e outras criações”

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