Crítica ao I Salão de Aquarelas de Piracicaba, 2015

por Fábio San Juan

Crédito fotográfico das imagens: Nilo Belotto

A aquarela, técnica que foi muito utilizada para “esboços” rápidos ao ar livre e estudos de cor, sempre teve uma posição secundária na arte ocidental. Os grandes mestres da pintura sempre foram valorizados pela sua habilidade na técnica da têmpera, e depois, no óleo. Embora artistas como Dürer e Van Dyck tenham utilizado a técnica, e com maestria, não foram as aquarelas que os fizeram famosos nem mestres da História da Arte, e sim suas obras a óleo.

William Turner é outro bom exemplo. Suas aquarelas eram muito apreciadas, mas foram pinturas a óleo como “The Fighting Temeraire” de 1839, e “Rain, Steam and Speed”, de 1844, que o notabilizaram. Essas obras parecem aquarelas, mas não são. Certamente Turner se beneficiou do seu trabalho com aquarelas. Mas os críticos e historiadores nunca conferiram a um artista que trabalhasse exclusivamente com aquarelas o status de um Grande Mestre. Nem os próprios artistas se arriscariam a essa exclusividade, justamente por essa posição considerada “menor”.

Em Piracicaba, temos o nome de Miguelzinho Dutra como praticante da aquarela, retratando cenas do cotidiano e tipos humanos da época. Utilizou pigmentos da terra pela escassez do material mais nobre. Atualmente, entre nós, Denise Storer, Gobeth, Luisa Libardi, Klaus Reichardt e Lídia Madeira são artistas que utilizam a aguada aquarelística de forma exemplar.

O I Salão de Aquarelas de Piracicaba vem trazer à cidade uma amostra dos aquarelistas no Brasil, ampliando nossos horizontes. Algumas obras são belíssimas, outras estão num nível médio, bem poucas não mereciam estar ali.

São 67 belas obras selecionadas na mostra competitiva (o Salão propriamente dito) e 10 obras do artista convidado Jorge Eduardo de Souza. Ao contemplá-las todas juntas, a riqueza da técnica da aquarela fica evidente, torna-se visível o quanto é possível explorar de formas diferentes uma mesma técnica.

A ideia de um Salão de Aquarelas não é nova. Porto Alegre realizou salões de aquarela na década de 1950. São Paulo organizou o Salão Nacional de Aquarelas na Faculdade Santa Marcelina em 1988, o Salão Paulista de Aquarelas novamente na FASM em 1994, e duas quadrienais, uma em 2003 e outra em 2008. No entanto, entre tantas iniciativas, parece que somente a Exposição Anual de Aquarelas da Associação Brasileira da Aquarela e da Arte sobre Papel, realizada anualmente desde 1994, tem regularidade garantida.

Para permanecer, além do apoio dos patrocinadores e da Prefeitura Municipal, o Salão de Aquarelas de Piracicaba, com o tempo, terá que adquirir uma cara, uma orientação, um “estilo” enfim. Embora seja cedo para cobrarmos, afinal é a primeira edição do evento, verifiquei alguns pontos que podem apontar para tendências futuras, sugerir reforços a partir do amplo leque que a aquarela oferece ou cobrir falhas.

Percebo uma singularidade que um salão organizado a partir de uma técnica, e não de uma “escola”, de um “movimento”, proporciona. Para um piracicabano acostumado à velha rixa “Acadêmicos x Contemporâneos”, é gratificante ver trabalhos de ambas as vertentes reunidos num mesmo espaço. No entanto, percebi que nem os acadêmicos são tão mais acadêmicos, nem os contemporâneos são tão contemporâneos.

Explico: a própria técnica da aquarela leva a trabalhos mais “soltos” pois a mancha é um recurso muito sensual. Quem já pintou com aquarela sabe do que estou falando. A fluidez do pincel molhado com água e tinta leva-nos a explorar os limites entre figuração e abstração. Recurso que vários artistas no Salão de Aquarelas exploram com muita felicidade, incluindo os premiados Ageli Arregul (“Noite”) e Paulette Gerecht (“Crepúsculo”). Então, são figurativos, mas que estão no limite da identificação de figuras. Não são tão “acadêmicos” assim.

Por outro lado, os “contemporâneos” da mostra usam a técnica mas demonstram estar pouco à vontade com ela. É que ser habilidoso com uma determinada técnica pode até ser “moderno”, mas nunca “contemporâneo”. Mesmo num Anselm Kieffer, artista alemão que retomou a pintura na década de 1980, quando se julgava que ela estava morta, não se avalia a sua exímia habilidade na técnica a óleo, e sim o seu conteúdo, o que o artista “quis dizer”. Chega a ser embaraçoso ver obras que simulam contemporaneidade apelando para o abstracionismo explicíto (sem entendimento do recurso), a exploração gráfica que caberia melhor numa gravura, e até obras que seriam melhor executadas em outra técnica, como a pintura acrílica ou mesmo o óleo. O leitor, se visitar a mostra, vai perceber, sem que eu precise citar nomes.

Os melhores trabalhos são aqueles que demonstram familiaridade do artista com a técnica. Há artistas que forçam os seus limites mas não estão maduros para isso e nos mostram trabalhos “verdes”. Artistas que fizeram obras com aquarela e que por por outros motivos, exceto a técnica, foram selecionados. Felizmente há poucos deste tipo nesse Salão.

Outros, expandem o nosso olhar pois fizeram isso primeiro consigo próprios. Conjugaram de forma feliz esse olhar interior, a realidade exterior e os recursos que a aquarela pode oferecer: transparências, o bom uso do branco do papel, textura, mancha, sobreposição de cores, massa (recurso dificílimo na técnica aquarelística), para citar os principais.

Obras tão diferentes entre si como “Chuva de Verão”, de Graciela Wakizaka (Prêmio Aquisitivo da Prefeitura Municipal de Piracicaba), “Sem Título II” de Arluce Gurjão (também Prêmio Aquisitivo da Prefeitura), “Entardecer no Engenho” de Klaus Reichardt (Menção Honrosa) e “Picos de Europa” de Márcia Misawa (Menção Honrosa), confrontadas entre si, são exemplos desses pontos de vista individuais, singulares.

As duas escolhas equivocadas do júri, ao meu ver, foram o Prêmio “Pintar”, conferido a Ivone Beltran por “Revolução dos Azuis”. A artista é excelente aquarelista, mas merecia ganhar por outros trabalhos, e não por esse. A obra aqui premiada apresenta uma harmonia monocromática desinteressante, monótona, que explora muito pouco os recursos possíveis da gama monocrática do azul; e a Medalha “Miguel Dutra”, que em nada honra o artista ituano-piracicabano pela escolha de Rampazzo, um decano que é o mesmo caso de Beltran, um bom artista premiado pela obra errada. Sua obra “Variações Paradisíacas XI” é uma daquelas obras que citei acima, que poderia ter sido pintada a óleo, uma pintura pesada, sombria, que não aproveita nem explora os recursos da aquarela. Em resumo, nega a própria técnica.

As duas escolhas inusitadas do júri foram “Picos de Europa”, de Márcia Misawa, mostrando dois caprinos em primeiro plano, com um excelente domínio do contraste e da massa negra (algo arriscado em aquarela); e “A Oficina”, de Pedro da Costa, num tema pouquíssimo usual em belas-artes, uma oficina com automóveis, muito bem executada.

Klaus Reichardt (assinando “Nikolaus”), além da obra que levou Menção Honrosa, apresenta-nos “Ipês Brancos e Amarelos-Esalq”. Klaus nos apresenta em suas pinturas a técnica singular desenvolvida por ele, que combina a subjetividade das manchas da aquarela e a racionalidade da composição geometrizada. Suas paisagens são decompostas em retângulos e círculos cuidadosamente preenchidos com manchas. Combinação que merecia ser mais valorizada para além de uma simples Menção Honrosa.

Uma ausência de artista piracicabana que senti bastante foi a da artista Lídia Madeira, exímia aquarelista que executa belíssimos retratos nessa técnica. Faltou na exposição a força de um retrato demonstrativo de uma forte personalidade que seria preenchido com muita felicidade por Lídia.

Os artistas piracicabanos que participam da mostra são Denise Storer, Luisa Libardi, Luiz Gobeth Filho (com dois trabalhos diferentes de sua produção usual mas muito competentes), Virginia Nicoletti, Margarete Zenero, Klaus Reichardt, Silvia Dionísio.

De forma geral, a seleção do júri I Salão de Aquarelas de Piracicaba é bem didática quanto às possibilidades da técnica e sua representatividade na História da Arte, embora abordagens como a do sumi-ê japonês e da pintura chinesa não estejam representadas. Mas obras com assuntos abordados por artistas tradicionalmente na pintura européia estão presentes, como pinturas de paisagem ao ar livre e marinhas, e descrição de plantas e pássaros.

Seria desejável da curadoria textos informativos, mesmo curtos, para apresentar a técnica de forma mais completa. Informações de como o artista conseguiu tal e tal efeito (por exemplo, o uso de sal de diferentes granulações) enriqueceriam a contemplação para os espectadores. Fica a sugestão para os próximos salões.

Serviço:

I Salão de Aquarelas de Piracicaba 2015
85 artistas inscritos com 231 trabalhos
47 artistas selecionados com 67 trabalhos

Local de exposição: Pinacoteca Municipal de Piracicaba
Rua Moraes Barros, 260 – Centro – Piracicaba, SP
Visitação: de 28 de março a 03 de maio de 2015
de segunda a sexta das 08h às 17h, sábados e domingos das 14h às 18h
Informações: fone (19) 3433-4930

Um comentário em “Crítica ao I Salão de Aquarelas de Piracicaba, 2015”

  • Olá Fábio! Bom dia!
    Que alegria ter novamente contato com Piracicaba e ainda mais de uma forma tão elogiosa! Obrigada, agradeço muito a lembrança e a menção em sua crítica. Hoje mesmo irei à Piracicaba para ver de perto as excelentes aquarelas deste “I Salão”, que espero seja o primeiro de muitos! A aquarela merece e Piracicaba também!
    Um forte abraço, espero ve-lo em breve!
    Lidia

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