Visita Virtual à Capela Sistina vídeo 03

Este é o 3.o, da sequência de 04 vídeos, onde o prof. de História da Arte Fábio San Juan prossegue em sua visita virtual a esta obra-prima da arte universal: a Capela Sistina.

Ele explica a decoração da capela, suas pinturas e seus significados.

​Link para o Vídeo / Artigo 01: apreciandoarte.com.br/visita-virtual-a-capela-sistina-video-01

Link para o Vídeo / Artigo 02: apreciandoarte.com.br/visita-virtual-a-capela-sistina-video-02

Link para a Visita Virtual no site dos Museus Vaticanos: http://www.museivaticani.va/content/museivaticani/it/collezioni/musei/cappella-sistina/tour-virtuale.html

Link para a Visita Virtual direto no site do Vaticano: https://www.vatican.va/various/cappelle/sistina_vr/index.html

Assista ao vídeo 03 abaixo:

Transcrição do vídeo

Olá! Eu sou Fábio San Juan, professor de História da Arte, e nessas sequência de 04 vídeos estou fazendo uma visita virtual à Capela Sistina, explicando a sua decoração. Se você chegou aqui direto e não viu os dois primeiros vídeos, clique nos links da descrição deste vídeo, ok?

Neste vídeo, vamos analisar o trabalho de Michelangelo na Capela Sistina.

Na época em que a equipe de Perugino pintou a Capela, o teto era pintado de azul com estrelas, uma representação do céu. Seguindo ainda uma tradição medieval do estilo gótico. Exatamente da forma como é pintado na Capela Scrovegni, de Pádua, pintada por Giotto. Essa capela em Pádua foi uma referência forte para a decoração da Capela Sistina. Quando em 1508 o papa Julio II, sobrinho do papa Sixto IV (obviamente já falecido), encomendou a Michelangelo a pintura do teto, pediu que fizesse os 12 Apóstolos. Mas depois concordou que o artista fizesse a sua própria proposta.

Não sei se você conhece a história de que Michelangelo recusou, a princípio, pegar a encomenda. Em primeiro lugar, porque ele estava em Roma desde 1505 para fazer o mausoléu, o túmulo do papa Julio II. Não queria sair daquele projeto, que era monumental e que iria firmar a sua reputação como um grande escultor. Por isso, alegou que era escultor e não pintor, embora tivesse já feito uma obra-prima como o Tondo Doni, uma tela representando a Sagrada Família. O papa Julio II praticamente forçou Michelangelo a aceitar, fazendo uma pressão psicológica que incluiu até uma ameaça de entregar a encomenda a Rafael Sanzio, o que para Michelangelo seria uma humilhação, já que Rafael era muito jovem e Michelangelo, um artista estabelecido. Acabou aceitando interromper o projeto da tumba papal e fazer o trabalho do teto da Capela Sistina.

Uma das exigências do artista florentino foi que pintasse o teto sozinho, o que levou incríveis 3 anos. A outra é que ninguém entrasse na Capela enquanto o trabalho não estivesse terminado. Ambas as exigências foram aceitas pelo papa e o contrato foi assinado em 1508.

Provavelmente Michelangelo teve ajuda de teólogos da Santa Sé, pois o conjunto da narrativa do teto é complexo e tem uma série de cruzamentos temáticos entre o Antigo e o Novo Testamento, além de citações às figuras pagãs da Antiguidade Clássica.

Então vamos dar aqui um esquema geral das pinturas do teto da Capela Sistina, de forma simplificada e nada exaustiva, pois há muito o que falar somente do teto de Michelangelo, ainda mais do que o restante da decoração da Capela Sistina, em muitos vídeos. São cerca de trezentas figuras, distribuídas em vários grupos temáticos.

Vamos lá:

No eixo central do teto, começando do fundo em direção à porta de entrada, temos seis painéis representando os acontecimentos dos primeiros capítulos do livro do Gênesis: Deus criando o mundo nos três primeiros painéis, nos três painéis seguintes a criação do homem, da mulher, o pecado original e a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Nos três paineis seguintes, é contada a história de Noé: a construção da Arca, o Dilúvio e a cena de embriaguez de Noé depois do Dilúvio.

Cinco desses paineis centrais tem ao lado, em cada um, quatro figuras de homens nus, conhecidos como ignudis (nus, em italiano), segurando escudos representando cenas do Antigo Testamento.

Nos 12 pendículos, que são esses intervalos entre os enjuntes triangulares, Michelangelo escolheu 12 figuras proféticas: 7 profetas do Antigo Testamento e 5 sibilas. Os profetas são uma escolha óbvia, pois todos anunciaram o Messias, mas as sibilas são figuras pagãs, da tradição greco-romana da Antiguidade. Por que razão o artista teria escolhido figuras pagãs num enorme conjunto de imagens de catequese cristã? Para um renascentista, isso não era problema nenhum:

Completando o que os professores de cursinho dizem a respeito do Renascimento, essa época não só retomou a cultura, as formas artísticas e a filosofia da Antiguidade pagã, mas leu nessa tradição cultural um prenúncio da Revelação cristã. Era o “encontro entre Atenas e Jerusalém”, entendendo-se que Jerusalém complementava Atenas e lhe dava um novo e melhor sentido. Então, como se considerava que Cristo tinha vindo não só para os judeus, mas também para os pagãos, leu-se várias profecias das sibilas, que eram as profetisas residentes da religião pagã antiga, como predições da vinda de Jesus. Como a Sibila de Cumas, que teria feito uma profecia messiânica, descrita pelo poeta romano Virgílio em suas Éclogas.

Há seis janelas de cada lado da capela. Imediatamente acima essas janelas, existe a quarta faixa de afrescos, que estão na parede e não no teto. Essas “meias-luas” são chamados de lunetas. Neles, Michelangelo pintou ancestrais de Cristo, através da linha paterna, de São José, conforme conta o Evangelho segundo São Mateus. No entanto, embora haja os nomes das pessoas inscrito em uma placa no centro de cada luneta, nem sempre o que está escrito corresponde às figuras pintadas. Duas dessas lunetas, aliás, haviam sido pintadas na parede do altar mas foram apagadas, pois, como sabemos, essa parede foi totalmente ocupada pela pintura do Juízo Final.

Sobre as lunetas, há os chamados enjuntes, de forma triangular. Por conta da forma triangular limitar a forma como as figuras podem ser desenhadas, as figuras estão representadas sentadas. Aliás, quem está representado nessas figuras e o que significam até hoje são um mistério para os estudiosos, pois mostram duplas, casais com filhos, trios, arranjos que lembram representações tradicionais da Sagrada Família, mas não há como ter certeza. Somente em uma delas os estudiosos identificaram a mulher como sendo Ana, a mãe do juiz Samuel, cortando uma peça de roupa, com o filho pequeno a observá-la. Mas o porquê de haver um homem ao fundo, usando um chapéu, é um mistério ainda não desvendado.

E ainda há os quatro pendículos nos cantos do teto, representando as cenas do Antigo Testamento: a Serpente de Bronze; o Castigo de Hamã; Davi e Golias; e Judite e Holofornes.

Para vocês verem que os detalhes não se esgotam, ainda há os putti, as figuras de crianças, assim como anjos, nos intervalos entre os elementos e entre os enjuntes e pendículos, nos intervalos entre as lunetas, e nas bases dos capiteis das cornijas. Os pendículos são sempre encimados por uma cabeça de bode.

Todo o conjunto do teto é pintado para dar uma falsa impressão de volume, de tridimensionalidade; essa forma de representação ilusionista, chamada de trompe l’oeil, que quer dizer “engana o olho” em francês, será usada como recurso amplamente no Barroco.

Qual é a diferença da abordagem de Michelangelo e a arte que vem antes dele?

É no teto da Capela Sistina, e depois no Juízo Final, que a fusão entre a tradição cristã da Idade Média e a arte greco-romana tem seu ponto máximo: a mensagem cristã com imagens que tem sua inspiração direta na forma de construir a figura humana das estátuas gregas, a musculatura do corpo humano flexionada de uma forma livre nunca antes vista, que depende de um conhecimento enorme de sua anatomia. É no teto da Capela Sistina que o divino e o humano se integram de uma forma inédita e impressionante. A imagem e semelhança do Homem com Deus é enfatizada não com a divindade esmagadora de Deus Pai, ou Cristo, e sim, Deus e Cristo são desenhados como seres humanos, embora numa escala maior e situados muito acima do ponto de vista do observador.

Outro elemento utilizado pelo artista é a perspectiva, que não foi inventada nem descoberta por Michelangelo, é usada por ele para, aí sim, inventar o recurso do trompe l’oeil, que aumenta o espaço de forma ilusionista, trazendo o céu para dentro de um espaço fechado. As pinturas dos ciclos de Moisés e de Cristo, na segunda faixa de afrescos nas paredes laterais, podem no máximo ser consideradas como “janelas”, aberturas por onde o espectador olha para cenas que supostamente estariam se desenrolando no exterior do prédio, como uma peça de teatro. O teto de Michelangelo abre tais janelas mas traz o “espetáculo” para dentro do templo, aproximando do espectador gigantescas figuras, como dos profetas e das sibilas, mas abrigando outras em nichos, em “buracos na parede”, como se estivessem escondidas, ou sentadas, em repouso, para serem veneradas. E os anjos, os putti, de forma lúdica, como que estão se exibindo entre os elementos arquitetônicos. Todos esses elementos exigem do espectador uma participação, e não só mera contemplação.

Eis porque a obra de Michelangelo serve até hoje como referência de arte realista, ilusionista e como exemplo de um conjunto de imagens que utiliza recursos variados da arte visual para compor uma narrativa, a História da Salvação da Humanidade segundo a doutrina católica.

Esse conjunto de obras-primas, ou como queiram, uma obra-prima única, foi pintada por Michelangelo entre 1508 e 1512. Vinte e dois anos depois, outro papa encomenda ao artista o que seria o “arremate”, a “cereja do bolo”, da decoração da Capela Sistina: o grande afresco do Juízo Final, que iremos analisar no próximo vídeo.

Link para o 4.o vídeo / artigo: apreciandoarte.com.br/visita-virtual-a-capela-sistina-video-04

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