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#AcertodeContas: Sobre pirâmides e biscoitos

#AcertodeContas: Sobre pirâmides e biscoitos

Publicado originalmente em Não é Imprensa, em 02/11/2024, leia aqui.

A “chamada” de um faraó grandioso para um padeiro honesto, mas padeiro

“Não faça biscoitos, faça pirâmides”

Esse foi o “pito” que João Guimarães Rosa passou em Fernando Sabino, quando contou ao autor de Grandes Sertões: Veredas que estava com dificuldades para escrever uma peça teatral.

Ambos eram mineiros, escritores, e se entenderam. Sabino entendeu, mas não aprendeu. Autor de livros marcantes para toda uma geração, como “O Grande Mentecapto”, “O Menino no Espelho” e “O Encontro Marcado”, parece-me que estes dois livros foram onde ele chegou mais perto de construir pirâmides. Mal se comparam com os biscoitos de fácil digestão que produziu durante uma vida.

Ele se reconhecia competitivo em tudo o que fazia; sua mentalidade era a do nadador de competição (que ele foi, de fato, quando jovem), que treinava muito, e por conta desse empenho, conseguia chegar sempre em primeiro lugar, ou no mínimo, a um lugar no pódio.

Ele não diz, mas me parece que seu treino em literatura eram as crônicas diárias que publicava na imprensa carioca, publicadas por mais de cinquenta anos a fio, quase sem interrupção. E que eram republicadas em jornais de todo o país.

Na luta para pagar os boletos trabalhando com literatura, Sabino fez tudo o que era possível entre 1945 e 2004, ano de seu falecimento, para chegar ao pódio: escreveu crônicas diárias em jornais, vendeu textos para as principais revistas do país e fundou outras, aceitou encomendas para escrever biografias de pessoas sem valor, abriu editoras…

Não é à toa que muitos de nós conhecemos o seu trabalho na coleção “Para gostar de ler”, da editora Ática, de São Paulo. Sabino não tem um único livro na famosíssima coleção “Vaga-lume” (assim mesmo, com hífen, na época), mas quem passou pela “Vaga-lume” passou por ele na “Para gostar de ler” – onde fomos apresentados também a Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade.

Fazia parte desta corrida para conquistar o pódio. Não o pódio de Grande Escritor, e sim o de Escritor Profissional.

Não o cobremos, portanto, por não ter seguido o conselho de Guimarães Rosa, que não precisava se preocupar com pagar os boletos nem em ser o Escritor Profissional: era diplomata. Rosa teve tranquilidade para correr a corrida, combater o bom combate e alcançar o prêmio de Grande Escritor.

Sabino, do ponto de vista estritamente literário, escreveu textos muito bons, médios e esquecíveis. Alguns, merecem mesmo a lata de lixo da memória. Será melhor mantê-los em um canto esquecido da biblioteca ou em pilhas de brochuras em sebos do tipo “armazém”, barracões com cheiro de bolor, onde ninguém mais entra.

Nesses desvãos, merece ficar, entre os livros de Coelho Neto e Humberto de Campos, a biografia “Zélia, uma Paixão”. Constrangedor, de tanto que Sabino se esforça para conferir interesse a uma vida sem acidentes de relevo: não há matéria poetica disponível, poética no sentido de “material de interesse literário”.

Zélia teve dois fatos em sua vida que foram matéria de noticiário: ser ministra da Economia de Fernando Collor de Mello e portanto, arquiteta do Confisco da Poupança, que (se você não lembra, eu entendo), confiscou 80% do dinheiro do dinheiro do país em 1990; e ter sido uma das serial wives do humorista Chico Anysio.

“O Encontro Marcado” é o seu melhor texto, uma mal-disfarçada autobiografia, um verdadeiro bildungsroman, “romance de formação” em que mostra as angústias de muitas pessoas de sua geração. O competitivo Eduardo Marciano narra a trajetória de Sabino, em seus primeiros anos, letra a letra. Na segunda parte do romance, os fatos da vida de Sabino são atenuados – ele tem vergonha em assumir, na persona literária, ter conseguido um cartório por ter tido como padrinho do primeiro casamento ninguém menos que Getúlio Vargas.

Compreensível e humanamente perdoável. Mas é de se pensar: tivesse assumido esta miséria, seu “romance de formação” não teria sido maior? Não por ser algo irresponsável do ponto de vista político – diria hoje a crítica woke que Sabino teria que ser cancelado por ter sido favorecido por um ditador fascista -, mas pela tragédia de ter aberto mão de sua integridade em troca de estabilidade financeira, o velho – e sempre atual – tema de Fausto, de “vender sua alma ao Diabo” (Diabo aqui, tudo o que corrompe, torna rota, rasgada, a alma em sua integridade).

Ele prefere colocar no lugar outro dilema ético. Torna-se o auge da confusão existencial do protagonista a decisão de abortar ou não o filho que fez em sua amante, ajudá-la ou não nesse aborto, viabilizar sua vida futura, enfim, lidar com a culpa por ter errado, tendo sido somente uma aventura, mentido à sua esposa, ocultado a verdade.

A solução que Sabino dá ao episódio é evasiva, quase covarde. Sua intenção parece ter sido conferir a Eduardo Marciano um tom de tragédia, por lhe ter sido ocultado o aborto, que enfim acontece, mas não na forma de aborto espontâneo como lhe é narrado pelo médico. Sua ignorância torna-se porta de escape, um alívio. Salva-se por culpa da benevolência da mentira dos outros. A sua redenção – que inicia-se na página final do romance, na forma de uma temporada de reflexão em um convento, providenciada por um dos amigos de adolescência – vem de uma autovitimização. Marciano depende da “caridade” de estranhos para a sua redenção. A solução, provisória, um “tempo para pensar”, vem por um amigo da época dos embates existenciais de adolescente, narrados na primeira parte.

Está vestida de uma certa ingenuidade, enfim, a resolução de sua narrativa, uma fuga que depende dessa caridade duvidosa do Próximo. (“O Acaso vai me proteger / enquanto eu andar distraído”?)

A confusão moderna, na qual Marciano está totalmente mergulhado, não é encarada de frente nem pelo protagonista nem por seu autor. Ele foge, assustado, para os valores da infância, a uma “época inocente”, travestida da legitimidade que vem da pureza da ignorância, da inconsciência : “eu era feliz e não sabia” (solução que é o andaime para a construção de duas outras narrativas de Sabino, “O Menino no Espelho” e “O Grande Mentecapto”, que estão na lista dos seus “best of”).

Marciano/Sabino, enfim, mostra-se no diálogo final como mistura do Filho Pródigo e o Irmão Ingrato da mesma parábola, volta aos braços do Pai, mas ressente-se da sua dependência. Marciano cobra do monge, que o acolhe, não ter comparecido ao Encontro Marcado no início do livro e de suas vidas. Encontro marcado entre três amigos (uma metáfora da Santíssima Trindade?) ao qual Marciano foi o único a marcar presença.

Uma forma oblíqua de dizer: o inferno são os outros, eu fiz tudo o que pude, meu irmão não correspondeu ao meu esforço, agora o Pai (Deus) que resolva minha vida. O Filho Pródigo/Irmão Ingrato, como não é mais responsável pelo que lhe virá, fica quieto, como criança que em tudo confia nos pais, mas rancoroso:

“Calou-se. Não tinha importância também o que lhe aconteceria depois”.

Por fim, Sabino acaba escrevendo uma narrativa repleta de episódios marcantes e que até levam a meditações existenciais, mas que se torna vazia de sentido por deixar a Obra Aberta (como Umberto Eco definiu a obra de arte moderna), mas aberta demais, a ponto de se isentar de qualquer responsabilidade com o leitor mais forte, no qual causou a expectativa por um texto que quase (quase!) torna-se um clássico.

Sabino não atende a esse leitor forte, ao fugir não só de uma solução (que não é obrigação de qualquer autor), mas de debater mais a fundo as questões levantadas, em vez de fugir delas. No auge do percurso existencial de Marciano, chega à beira do precipício da Eternidade, mas percebendo o perigo de cair num abismo sem fundo (que é o lugar de todos os Clássicos, a profundidade do abismo da alma humana), Sabino acaba se desviando da beirada. Renuncia à Pirâmide e retorna à Padaria, preferindo seus biscoitos mais digeríveis, mais açucarados, e portanto, esquecíveis.

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