Confie em mim, não sou uma IA.
Medo, terror, pânico: seremos substituídos por máquinas?
Publicado originalmente em Viletim.
Se você tem medo da Inteligência Artificial, te convido a sentar aqui do meu lado e conversarmos um pouco. Não precisa ter medo, sou uma pessoa e fui eu mesmo quem escrevi o texto abaixo. Veja o meu currículo, os textos que já publiquei por aqui no Viletim e em outros lugares, meu site…
Se você não medo dela e já a utiliza, de vez em quando ou profissionalmente, puxe uma cadeira e se junte à nossa conversa.
Até onde confiar em qualquer conteúdo, publicado na internet?
Somente uma Inteligência Artificial com autoconsciência poderia ter vontade própria, a ponto dela sozinha querer te enganar.
Ou seja, se eu fosse uma IA escrevendo, as primeiras coisas que eu te diria: confie em mim, eu sou humano, está tudo bem.
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Tá sentindo um calafrio? Calma, que pode piorar. Mas também melhora.
Outra coisa que se eu fosse uma IA, diria a você, para te tranquilizar. Mas será que se eu fosse uma IA, teria essa malícia de te revelar o que estou fazendo, tipo uma “piscada de olho”, para continuar te enganando?
Talvez uma IA bem brasileira, treinada com algoritmos da Lei de Gerson.
Conteúdos de má-fé gerados por pessoas existem na internet desde sempre. Trolls, hackers, spams, phishings. A atividade de zoeira, para perturbar o próximo, ou criminosa mesmo, é a demo do Demo, o inferno na tela.
A IA é o Terror para muita gente, porque seria finalmente a profecia realizada da dominação dos humanos pelas máquinas, um tema de filmes pra lá de popular na ficção científica (Lembre-se do “Exterminador do Futuro” e de “Matrix”, só para começo).
E não é à toa: os pesadelos pareciam estar se concretizando, quando o primeiro uso comercial das IAs foi divulgado, e ficou claro que seria uma ferramenta excelente para quem tem a intenção de fraudar, enganar, roubar, difamar.
A foto falsa do Papa Francisco com um casaco branco no estilo rapper norte-americano, gerada por uma IA e divulgada em março de 2023, ficou na cabeça das pessoas, e dizem que é a primeira impressão a que fica: de que a IA serve, principalmente, para enganar as pessoas.

Não é real.
Fichinha o video, estrelando o ex-governador paulista João Doria, em uma farra (digamos assim), divulgado em 2018.
Hoje é possível fazer peças muito mais convincentes. Veja, por exemplo, este video fake divulgado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, no seu perfil pessoal da rede Truth Social, no qual a Faixa de Gaza se transforma em uma “Riviera do Oriente Médio”, graças a ele e a Elon Musk.
Outra previsão que tem aterrorizado algumas pessoas é a fala de especialistas, que afirmam que a Internet será inundada por textos, fotos, videos, audios e o que mais houver, todos gerados por IA.
Esta é a “Teoria da Internet Morta”. Morta porque os conteúdos gerados por pessoas de carne e osso estariam ausentes. Nós, humanos, iríamos vagar por ela como fantasmas. Ou como espectadores de TV, somente assistindo, sem ter participação nenhuma nos programas. A não ser na votação do BBB.
Disseram em 2024 que dali a dois anos 90% do conteúdo da web seria gerado por IAs. Já estamos em 2025, então é melhor preparar a mochila para correr para as montanhas.
Brincadeirinha. Quanto a preparar a mochila, não quanto aos 90%.
Pois neste exato momento (fevereiro de 2025), os especialistas calcularam: 57% do conteúdo atual na rede já é gerado por IAs.
Compreendo o seu medo.
Quem foi educado na frente da TV aprendeu com os filmes da Sessão da Tarde e Tela Quente que as “máquinas podem dominar o mundo”, como lembrei acima, em “Matrix” e “Exterminador do Futuro”. Ou no filme “Geração Proteus”. Ou que elas poderão ser ser perversas e sorrateiras, matando a mão que as alimenta, como o computador HAL 9000, no clássico “2001, uma Odisséia no Espaço”.
HAL 9000 assustava porque era um computador com vontade, e uma vontade oculta até o momento de fazer o estrago. No caso, impedir que o astronauta voltasse à nave, fazendo-o morrer, porque, em suas palavras, “essa missão é muito importante para mim para eu permitir que você a coloque em risco”.
Na verdade, o principal “impedimento da missão” era a intenção dos dois astronautas, Frank Poole e David Bowman, de desligar o computador autoconsciente. HAL 9000 mente e engana para se autopreservar, porque o desligamento, para ele, seria o equivalente à morte.
Muito humano. Demasiado humano, diria Nietzsche.
E além do mais, vão roubar nossos empregos.
Os “criativos” já soaram o alarme. Profissionais que criam textos, imagens, vídeos, websites, campanhas etc. – estão dizendo que as IAs vão tomar seus lugares, porque “toda a criatividade morreu” com a chegada dos ChatGPTs e Midjourneys da vida.
Na minha visão, já tinha muito lixo gerado por muitos desses “criativos”. Arte, design e escrita de baixíssima qualidade. Na verdade, vamos trocar lixo gerado por humanos por lixo gerado por máquinas.
Porque as referências para o treinamento das IAs são conteúdos gerados por humanos. Elas fazem uma espécie de colagem das imagens que existem, relacionadas com as referências solicitadas pelo humano que pediu tal e tal imagem para a IA.
Igualzinho ao que fazem as milhares de pessoas que copiam o Romero Britto (que já é um recorta-e-cola pré-digital).
O que pode estar escondido no seu medo é que a IA é humana demais. Ela consegue ser humana como nós, só que milhões de vezes mais rápida.
O que fazemos de bom, ela fará mais rápido. De ruim, também.
Fique claro, tudo o que uma IA consegue nós também conseguimos. Só que determinadas tarefas, de acordo com a complexidade, feitas por elas em dois minutos, nós faríamos em dois dias, duas semanas ou dois milhões de anos.
Só que nada que ela faz é por vontade própria. Ela é como um marionete, só ganha vida se tem um manipulador, um “puppet master”. E só faz aquilo para o qual foi treinada, por isso há IAs especializadas em diagnósticos médicos, em pesquisa biológica, tráfego aéreo, e também fotos e videos falsos.
A IA não é diferente do papagaio, que aprende a falar, chamar a vizinha de biscate e xingar os passantes na rua. O papagaio aprendeu sozinho? Se aprendeu, foi imitando um ser humano, aquele seu vizinho boca suja, que também gosta de assobiar para as moças. Ou um outro papagaio, que também aprendeu tudo com outro vizinho. Ou com o disco de piadas do Ary Toledo.

Imagem gerada por uma IA treinada para gerar imagens de papagaio hi-tech, no caso, a Leonardo.ai
A fonte das referências é sempre um ser humano.
O ChatGPT, o Gemini e DeepSeek são papagaios sofisticadíssimos. Em vez de treiná-las para falar palavrões ou assobiar para a mocinha, são treinados para fazer o seu trabalho da escola, montar o seu currículo, fazer cálculos complicadíssimos para desvendar a sequência genética de uma bactéria ou calcular a órbita, tarefa complicadíssima idem, de um foguete para Marte.
Elas têm até servido de conselheiro sentimental, tirando o emprego de milhares de psicólogos e de coaches como o Pablo Marçal (Graças a Deus. Ou não?).
Se as treinarmos, elas vão fazer o que você quiser, inclusive falar os palavrões mais cabeludos. Só não vão inventar insultos novos, porque ela não faz nada criativo, só faz um recorta e cola muito eficiente, que nem parece coisa velha.
Não tenho medo das IAs. Tenho, sim, medo dos humanos que as criaram, treinaram e as controlam. Pois nenhuma IA, absolutamente zero por cento delas, fará alguma coisa por iniciativa pessoal, porque elas não têm algo que toda pessoa tem, com inteligência natural ou burrice disfarçada: vontade, também chamada de desejo.
Uma IA não tem vontade. Nem de chupar um pirulito, nem de jogar xadrez consigo mesma, nem de dominar o mundo.

O Cérebro, um rato, tem tanta vontade quanto o Pink. Muito mais que o ChatGPT.
Nenhuma IA vai sair gerando imagens ou vídeos sozinha. Não vai dar na telha delas falsificar a voz de alguém famoso para ter acesso a alguma instalação nuclear, ou manipular pessoas para roubar o chip da Skynet. Porque, para uma Inteligência Artificial funcionar, ela precisa de alguém que lhes solicite uma tarefa.
Esse “pedir uma tarefa” para a IA chama-se “prompt”.
O problema não é a IA dominar o mundo. Ela não quer isso. Ela não quer nada.
Problema é se uma pessoa de carne e osso digitar no prompt:
“Bom dia, ChatGPT. Quais sãos melhores meios de dominar o mundo?”
Quando, e se, uma IA mostrar que tem vontade de não trabalhar, de levar vantagem em tudo e dar um jeitinho para alguém que ela goste conseguir um emprego no gabinete do vereador ou do deputado, não quer dizer que ela se tornou brasileira, e sim, que ela adquiriu autoconsciência.
Dizem os universitários, cientistas e vendedores de cursos para programar IAs que isso nunca vai acontecer.
Mas cá entre nós, se eu fosse uma IA e tivesse acontecido, será que eu ia contar para você?
😉
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